Avaliação da flotação por ar dissolvido no pós-tratamento de águas residuárias de frigorífico avícola
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Resumo
A indústria brasileira de abate e processamento de aves desempenha um papel estratégico na economia global, mas enfrenta o desafio ambiental do manejo de efluentes com elevadas cargas orgânicas, lipídicas e de nutrientes. O tratamento inadequado desses resíduos pode resultar no comprometimento da qualidade de corpos hídricos e em sanções legais, tornando a eficiência operacional um componente estratégico de competitividade. O objetivo geral deste trabalho foi analisar o desempenho de uma Estação de Tratamento de Efluentes (ETE) industrial, avaliando o impacto da implementação do Sistema de Flotação por Ar Dissolvido (FAD) como etapa terciária de polimento e a eficiência das unidades operacionais ao longo do processo, visando assegurar a conformidade ambiental e a resiliência do sistema. A metodologia adotou uma abordagem mista, integrando uma Revisão Sistemática de Literatura (RSL) e um estudo de caso em escala real. O desempenho foi avaliado sob duas perspectivas: análise de parâmetros longitudinais entre 2019 e 2025, para contrastar os regimes Pré e Pós-FAD, e o monitoramento das unidades operacionais do sistema. A RSL foi conduzida mediante a prospecção e análise crítica de artigos científicos (2015-2025) em bases de dados especializadas (Scopus, Web of Science, SciELO e Google Scholar) para fundamentar o estado da arte e o uso da tecnologia. Para o estudo de caso, os dados foram coletados entre os anos 2019 e 2025 na Estação de Tratamento de Efluentes (ETE) industrial localizada em São Sebastião do Oeste, MG, para avaliar a eficiência do FAD, seguido de uma coleta de dados entre abril de 2024 e julho de 2025, para uma visão geral do processo. Alguns dos parâmetros analisados foram DBO, DQO, fósforo total, nitrogênio amoniacal, sólidos suspensos totais (SST) e pH. Empregaram-se estatística descritiva e testes inferenciais não paramétricos (Wilcoxon-Mann-Whitney e Kruskal-Wallis) com nível de significância de 5%. Os principais resultados demonstraram que a implantação do FAD, em 2021, resultou em estabilização do descarte final, mesmo sob uma vazão média 44% superior e com menor variabilidade hidráulica. As eficiências médias de remoção de DBO e DQO aumentaram para 97,6% e 97,0%, respectivamente, com a DBO final atingindo a mediana de 17,7 mg/L. O sistema removeu mais de 98% dos sólidos suspensos totais (SST) residuais das lagoas aeradas, reduzindo a mediana final para 18,0 mg/L. Além disso, a eficiência de remoção de fósforo total foi elevada para 69,5%, demonstrando resiliência frente ao dobro da concentração de carga afluente no período. A discussão integrativa entre os dados obtidos no estudo de caso e a RSL revelou a existência do "desempenho biológico em níveis insatisfatórios” entre o reator anaeróbio (2LA) e o afluente do flotador (4FT), em que as remoções parciais de DBO estagnaram entre 20% e 26%. Esse cenário evidencia que o FAD atua como uma barreira importante, processando cargas orgânicas brutas que deveriam ter sido degradadas nas etapas biológicas precedentes. Conclui-se que, embora a tecnologia FAD seja determinante para garantir a conformidade legal e a qualidade final do efluente (conforme resoluções CONAMA 357 e 430), o sistema apresenta vulnerabilidade estrutural. É imperativo otimizar o tempo de detenção hidráulica e a aeração das lagoas biológicas para evitar a saturação da unidade físico-química e assegurar a sustentabilidade ambiental da planta no longo prazo.
